sábado, 19 de fevereiro de 2011

A Casa da Nóia II - Paranóia

Vamos... caralho, um bar, onde tem um bar? Ali! - Ele para o carro e desce, compra isqueiros e cigarros, sabe que vai precisar. Segue adiante, conheceu aquele lugar a pouco tempo, foi apresentado ao dono do barraco a pouco tempo, esse se dispôs a recebê-lo quando precisasse, lá poderia fazer o que queria. Antes passa nos ‘meninos’, não poderia chegar de mãos vazias.
Chega e é bem recebido, sabiam que ele fora fumar, em segundos tem um cachimbo na
mão e o dono ao seu lado esperando sua recompensa por ceder o espaço. Ele tira uma pedra do bolso e lhe entrega, o dono sorri e o manda ficar a vontade, indo para o quarto, ele permanece na cozinha se senta em um banco e prepara o cachimbo, deixa um maço de cigarros do seu lado.
Dá o primeiro trago, sente o sabor da pedra, aspira a fumaça cada vez com mais vontade, com mais força até que não consegue mais puxar, tira o bimbo da boca e segura a fumaça, da mesma forma que alguém submerso segura a respiração para não se afogar, não agüenta mais, solta, e aquela nuvem se forma, ele está completamente louco, começa a olhar em volta, tem inicio a paranóia, coloca o cachimbo em frente e sem trocar a cinza põe outro pega sobre ele, e novamente: aspira... segura... solta. Começa a tatear a mesa a procura de algum pedaço, pedaço que ele sabe que não perdeu, mas a nóia o obriga a fazê-lo.
A essa altura o dono e outras visitas já sabem que ele está fora de si e então
começa a pedição: - Me arruma um pega? – Me arruma um cigarro? – Me empresta o isqueiro? Ele já sabia que isso iria ocorrer, por isso comprou mais de um maço de cigarros e mais de um isqueiro. Um para emprestar, mas o dele era dele.
Tem inicio as andanças, as nóias viam que ele ia tragar, era à hora na qual elas começavam a ir a cozinha a cada segundo, queriam aproveitar o momento para roubar-lhe a droga que estava sobre a mesa no momento de distração, ele sabia, notava, ouvia a conversa do outro lado, o dono dizia – Mas cadê? Vocês pegaram, eu quero minha parte.
Chegam novos nóias, e todos se aproveitam da situação, sabiam que ele bancaria a noite. A droga acaba. Ele pede ao dono que vá buscar mais dez, eles não tiram os olhos da carteira dele. A droga chega, ele recomeça, sabia que havia sido roubado novamente, o dono levara um isqueiro, iria abrir alguns pacotes tirar parte da droga e fechar novamente, mas ele nada conseguia fazer.
Ele ouvia, era incapaz de reagir, mas ouvia tudo ao seu redor. – Pega a chave do carro, a gente leva ele nem vai ver! Tá muito louco tem que se fuder! O cara ta tirando, fica fumando e a gente só olhando. Mentira, ele havia sido generoso e distribuído droga a todos que lá estavam não por eles, mas para tentar ter algum sossego sem que lhe pedissem, inutilmente, parecia que não havia dado nada, pois no instante seguinte lá estavam eles de novo, aquele grupo, pressionando por mais.
Ele continuava escutando. – Sabe onde tem boa noite cinderela? A gente leva o carro e ainda pega um barão pra entrega ele. Sente medo, mas não é capaz de reagir, de sair daquele lugar, não enquanto ainda tivesse droga, insistem para que ele se banhe apenas para poder roubá-lo, ele não vai. Pedem o celular emprestado, ele não empresta, Sabe que nunca mais o verá caso o faça.
A droga acaba, ele não tem como sair dali ainda, precisa se recuperar para poder dirigir, caso o carro ainda esteja onde ele o havia deixado. Querem que ele tome aguá, ele não aceita indo pegar direto na torneira, continua louco, mas precisa ir. A paranóia o consome enquanto ele vasculha o chão e a mesa atrás de qualquer farelo, não encontra nada.
Do outro lado continuam fumando, ele pede ninguém tem para lhe dar, mas continuam fumando. Ele quer ir, mas fica. Ele sente os olhares sobre si, acham que ele está escondendo algo. Imaginam que ainda tem dinheiro, tem o celular, tem o carro. O dono do barraco chega e põe umas facas sobre o armário, ele tem medo.
Com o sol quase nascendo ele sai de lá, ainda vivo, teme pelo carro, ainda assim não é o primeiro lugar para o qual ele vai, primeiro passa nos meninos, eles estavam certos, ele ainda tinha dinheiro, mas a nóia o forçou a sair daquele lugar, o medo, mas ainda queria fumar, pega o carro muito louco, como por milagre deixa de bater em uma moto, é xingado. Chega ao novo lugar, ali teria paz. Aluga um quarto e recomeça agora sozinho.
Horas depois, a recepção verifica que o seu período está vencendo. –É hora de chamar aquele drogado dos quintos, nunca mais vai entrar aqui. O interfone começa a tocar... toca... toca... toca... Ninguém atende. Ele, enfim, encontrou a paz.

21 comentários:

  1. Seguindo seu Blog:

    Segue o meu:

    http://bloghugogreen.blogspot.com

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  2. Oi Ademar,

    Quanta aflição senti ao ler cada parágrafo. Vivenciei cada triste isntante, parecia estar ali, no cantinho a observar.
    Eu, sempre habituada a ler blogs políticos, sociais e poéticos, confesso... fiquei chocada!
    Parabéns pela causa que abraçaste. Teus escritos nos faz expectadores ainda mais atentos. Parabéns pelo blog!


    Grande abraço!

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  3. Muito obrigado Wilma, fico satisfeitissímo com seu comentário, chocar é a idéia, para que abramos nossos olhos em relação a esse vicio maldito, e claro como escritor ler suas palavras me envaidece demais.
    Seja sempre muito bem vinda,
    Abraço,

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  4. Olá Ademar,
    É muito interessante a maneira como escreve os contos a respeito do crack. Gostei da narrativa e fiquei satisfeito com o realismo descrito. Sou médico psiquiatra e lido com essa problemática infeliz que assola o mundo e, não menos, o Brasil.
    Um grande abraço

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  5. Caro Ademar, meus parabéns pelo blog e pelas publicações !

    Abraço

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  6. Psiquismo, Palacios, muito obrigado pela visita e comentários! A idéia é ser o mais real possivel para servir de alerta aos desavisados: está droga destrói! Somente através do amor, da perseverança e de bons tratamentos, estes continuados, não apenas aquilo que o governo faz de quinze dias, poderemos resgatar aqueles que caíram em suas garras. Ótima semana para vocês.

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  7. Este comentário foi removido pelo autor.

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  8. Tu escreves muito bem, Guri. Bela narrativa, tirou o fôlego. Apesar de retratar a realidade de muitos, triste realidade, concluo.
    -
    Tenha uma linda semana.
    Bjos

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  9. Ao ler esse relato tão realista, meu coração acelerou. Quem se dispõe a usar crack é protagonista de seu próprio filme de terror.

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  10. Muito obrigado querida Catia, amigo Papagaio. Fico muito feliz que tenham gostado e comentado.
    Este é um conto realista, infelizmente pesado, como é a vida destas pessoas, quiserá eu, e tenho certeza, vocês também que a realidade não fosse tão sombria. É preciso que isto se espalhe, informação (não o crack) para que possamos conscientizar o maximo possivel nossos semelhantes para que não adentrem por este caminho, e os que, infelizmente, já estão nele para que procurem ajuda o mais rapido possivel.
    GRANDE abraço para vocês,

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  11. Muita aflição e tensão neste texto!
    Deve ser realmente muitíssimo difícil de encontrar a paz neste meio, seja usufruindo da desgraça dos outros... ou da própria desgraça!
    Mas você soube levar muito bem o que eu imagino ser um "conto" da vida real.
    Meus parabéns pelo belo texto!
    Continue neste caminho, viu?
    E com certeza voltarei para prestigiá-lo!

    Um forte abraço,
    Lucas Neves.

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  12. Olá amigão,
    Passando para ler mais um texto de arrepiar (excelente) e te desejar que continues assim, criativo... rsrsrs
    Beijão.

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  13. Muito obrigado Beth, é sempre prazeroso tê-la visitando-nos e contribuindo com seus comentários.
    Tenha uma ótima semana menina,

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  14. Olá Ademar!

    É uma situação complicada, a forma como relatou ficou muito realista, e é infelizmente assim, que muitos se encontram 'achando' que com o uso das drogas encontrarão o poder, o comando, mas estão escravizados pela coisa em si, creio no bem que há no ser humano, sei que há muito sofrimento ainda na face da terra, estamos sempre enviando muita luz, muita energia positiva, e quanto mais pessoas puderem fazer o mesmo pra transformar toda energia, todos os átomos que estamos mergulhados, fluindo em todos nós, estaremos conquistando a melhora no todo! Por isso sempre falo da conquista de um mundo melhor, mas, pra isso é preciso o maior número de pessoas possível que se envolvam nesta transformação!

    Um abraço,
    "Todo o Conhecimento é Luz que Inspira a Alma" -*Vera Luz*-

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  15. Pois é Ademar, descrição perfeita. O crack, além de causar dependência logo no primeiro uso, ainda pode bombardear todo o organismo de seu usuário, além de destruir todos os seus familiares com roubos, "amigos", e atitudes que causam codependência aos mais próximos que, com o passar do tempo percebem que nada mais a fazer senão desejar um fim para tudo.

    Ótimo texto, e uma grande iniciativa!
    Abraços

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  16. Eu como mãe confesso que uma das minhas maiores preocupações em relação aos meus dois filhos, é a de instrui-los em relação as drogas, é muito triste vê alguém que a gente ama se destruindo com as drogas, isso acaba que destrói com a família inteira.Seu blog é um ótimo veículo de alerta para as pessoas pensarem antes de experimentar as drogas que muitas vezes é um caminho sem volta.
    Bjs e Parabéns pelo Blog.

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  17. Olá Ademar
    Os seus contos retratam de forma brilhante a triste realidade do consumo de drogas!
    Um excelente fim de semana pra ti!
    Grande abraço.

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  18. Obrigado Alba é sempre um prazer tê-la aqui e ler teus comentários.
    Um bom domingo minha amiga!!!!
    GRANDE abraço,

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  19. Nunca me envolvi com drogas,porém vejo muitíssima importância em blogs de "alerta" como esse, muito bacana a intenção!!!Parabéns!

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  20. Essa é a realidade de todos que se entregam ao vício da droga, seja ela qual for!

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  21. Muito bacana sua iniciativa!!! Naun sei como chegou a mim mais tenho uma idéia. Vc estava na lista dos meus seguidores no twitteque e, sempre posto lá mensagens que fazem referência a literatura de NA. Acredito que há um caminho para serenidade e a sobriedade plena e é muito boa a maneira que vc encontrou para propagar o décimo segundo passo. Sua narrativa é muito boa.

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