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quarta-feira, 30 de março de 2011

O mesclado ou melado = crack + maconha - vida

Ele dixavou cuidadosamente a maconha, a deixou quase como pó. Cortou o papel, enrolou, abriu e colocou maconha nele. Com a tampa de uma caneta a espalhou por igual. Então pegou o saquinho, o abriu com pressa. La estava ela, a pedra. Começou a quebrar a pedra de crack em pequenos farelos e a espalhou sobre a maconha, parou um pouco antes do final. –Na pontinha é desperdício. Falou para si mesmo. E ele não queria desperdiçar. Enrolou tal qual um baseado comum. Mas não era um baseado comum, era um mesclado ou melado.
 Acendeu um cigarro. Precisava do cigarro. Pois com ele manteria o melado aceso, o crack apagava a maconha quando derretida ela passa de sólido a liquido e então a vapor, este que é tragado. Então o cigarro tinha que estar lá e a cada pega eram encostadas suas brasas, ponta a ponta. Ainda assim, o lado que continha a maconha cismava em queimar mais rápido. Ele pegava e passava saliva na maconha com o dedo para evitar isso, não podia desperdiçar!
A nóia já estava presente muito antes dele terminar o melado. Pensou que assim se manteria longe da pedra, mas só pensava nela. Correu a pegar o cachimbo, e o que dela restou, queimou.
A nóia só fez crescer. Ele queria mais. A batalha teve inicio! O que faria? Iria para a rua a buscar mais? Ligaria pedindo que lhe trouxessem mesmo sendo mais caro? Enquanto tentava pensar, ia tateando tudo a sua volta, verificando todos os vãos possíveis sempre a procura de algo que não existia.
Pegou a maconha e fez um baseadinho. Fumou. Se acalmou. Foi feliz, podia ter morrido com tanta mistura! Aos poucos a fissura da procura se foi. Sabia que não podia dirigir. Ligou... O numero tocou, tocou, tocou... Ninguém atendeu.
Por essa noite se salvou. A nóia não permitia que saí-se. O serviço de entrega estava fora do ar. O destino fora bom com ele. Cabia a ele agora ser bom com seu destino. Colocar em sua mente que a substituição não adiantava, o caminho de sua libertação era se afastar, não por estar na nóia, não por um telefone apenas tocar e sim...  por ele se amar.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Ela e Ele


Ela andava pela noite atrás daquilo que precisava: pedra. Como os usuários costumam chamar, ou peça, como alguns traficantes gostam que seja chamado. A não aceitação em casa fez com que caísse neste mundo de trevas. Ela não era aceita por ser uma transexual, uma menina em corpo de menino. Expulsa de seu lar vivia pelas ruas atrás de algo que a supri-se emocionalmente. Coisa que nunca encontrava adotando como solução o esquecimento que o crack proporcionava.
Certa noite ela se viu envolvida com ele, um negão, que achou lindo. Como havia feito um programa estava com dinheiro para sanar os seus desejos, pela droga e pelo corpo dele junto ao seu. Assim começaram a noite em um quintal de uma casa abandonada. Deram as primeiras tragadas na pedra. Depois disso o apetite dela por outros prazeres se foi, e ele nem ai, só queria fumar. E foram fumando até o momento em ela percebeu que não havia muito mais. Escondeu o que restava. E tentava se livrar dele que agora a perseguia vendo nela a fonte para satisfazer seu vicio.
Ele a agradou, a alisou, se esfregou. Mas os pensamentos dela já estavam distantes. Era só pedra. E ele de possível fonte de carinho para sanar sua carência, ainda que por um breve instante, passou a estorvo. Mas não queria largar do pé dela, e ela louca para dar mais uma tragada e não podia, caso fuma-se teria que compartilhar com ele e não havia o bastante, só havia para ela.
Foi quando ele cansado de querer agradar, começou a ameaçar. Foi quando aquelas enormes mãos que antes ela queria em seu corpo a alcançaram seu pescoço e começaram a sufocá-la. Ela viu, finalmente, o fim de seu sofrimento. Como se ansiosa por isso... Não reagiu. Ele pegou o que queria e desapareceu pela noite, deixando aquele jovem e frágil corpo jogado nas ruas.
O corpo foi encontrado. Demorou alguns dias até que sua mãe e pai tomassem conhecimento do ocorrido. Ainda conseguiram enterrar a filha. A cada dia que passava pai e mãe sofria. A visão do corpo morto da filha em seus olhos, o odor fétido em suas narinas, testemunhando o mal que haviam feito. Perseguidos eternamente por um ‘se’. Se eu tivesse feito isso... Se eu não tivesse feito aquilo... Tristeza e dor os consumiriam até o fim de suas vidas.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Contos do Crack "A casa da nóia III - Escolhas e Consequências"

A Casa da Nóia III – Escolhas e Conseqüências


Já era inicio de madrugada. Eles estavam reunidos na casa. A casa ficava em um escadão, um grande terreno no qual os irmãos haviam construído três pequenas casas. Com o tempo dois deles se viciaram terrivelmente. Os demais, com medo, partiram, até que apenas eles restaram. Mesmo antes disso os dois já recebiam visitas em casa, mas agora o entra e sai era constante e ininterrupto. A vizinhança tinha pavor, não dos irmãos, e sim das visitas. As brigas eram constantes, um acusando ao outro de ter e não compartilhar.


Duas horas. Ouvem o portão bater e vários passos, de várias pessoas entrando rapidamente. Um deles vai ver quem estava chegando. É o primeiro a ser jogado ao chão com imensa violência. Eles adentram a casa, os nóias tentam se esconder. Sentem medo! Não adianta. Cada canto é revistado, atrás do sofá rasgado, dentro do velho guarda roupa, todo o banheiro. Todos são pegos e jogados no quintal.
Os visitantes, homens mascarados, armados e sem dó, torturam cada um deles. Esmurram, chutam, dão coronhadas. Dentes se soltam, ossos se quebram, sangue escorre. Os dois irmãos são os que mais sofrem. E mesmo neste caos, nesta loucura, com seus corações acelerados e seus corpos arruinados, pensam no crack, na pedra. Ainda anestesiados não tem noção do estrago em seus corpos.
Enfileiram os nóias. Estes tremem, pedem, ofendem, suplicam, de nada lhes vale isso. Os homens encapuzados sabendo que não tem muito tempo resolvem terminar o serviço logo. Preparam as armas. Disparam... Disparam... indiscriminadamente. Os gritos se elevam na noite. Os corpos desabam na terra.
Eles se vão tão rapidamente quanto chegaram desaparecendo na escuridão. Os vizinhos, que temerosos se mantiveram quietos e silenciosos, aos poucos criam coragem e vagarosamente se aproximam da casa. Chamam a policia e com eles adentram pelo portão vendo aquela cena que nunca se apagaria de suas memórias. Corpos caídos uns sobre os outros, sangue, buracos de balas nas paredes e muitas capsulas pelo chão.
Ainda assim, como que por milagre os irmãos e mais alguns estavam vivos. Uns morreram no caminho do hospital, outros morreram lá. Os irmãos sobreviveram. Um se mudou, foi para o interior, tamanha a adversidade pela qual passou que o vicio largou, seguiu em frente e prosperou. O outro seguiu com a amada maldita e seu fim logo encontrou.
Toda escolha tem sua conseqüência. Nunca é tarde para repensar o que desejamos e por mais difícil que seja, sempre existe a possibilidade de um amanhã melhor do que o hoje depende apenas de darmos o primeiro passo nessa direção.

sábado, 12 de março de 2011

Contos do Crack apresenta "Pais e filhos... do crack".

          

Pais e filhos... do crack.

-Eu quero! Ela pensava e chutava a mãe. A mãe merecia os chutes! Também queria. Não via à hora de conseguir. A filha chutava mais forte. -Annnda! Eu quero! Chuta novamente. A mãe consegue, a expectativa é grande. Elas fumam com prazer. A filha se aquieta, tranqüila, junto a mãe, que logo entra em trabalho de parto.

-Pai, para!!! Não faz isso pai, não fuma isso! O pai parecia um zumbi. Inerte, sem reação, exceto a de procurar a droga. O filho assistindo. -Pai... Se o senhor não para vo fumâ junto! E pega um cachimbo. O pai sem reação assiste... Ou não, ao filho preparar o cachimbo. Ele fuma. O filho e o pai, só querem o crack agora. O pai força o filho a tudo para obter a droga para eles. O filho faz e se submete a qualquer um por migalhas.

A filha na incubadora. Treme. Quer mais!

O filho violado. Sofre. Sente todo o mal do mundo!

A mãe descobre em um raro momento de lucidez o mal que fez a filha. A dor vem com toda a sua potência. O momento de lucidez se vai, e ela está novamente nas ruas.

O pai sabe que o destino do filho é morrer, tem pena, mas logo quer mais. A avó, tal qual uma heroína, mãe ao quadrado, vem em socorro do neto, o pai deixa-o ir e ele se vai.

Um casal, que nunca havia sido agraciado com a benção de um filho, pode adotar a filha da nóia, que, mesmo com seqüelas, foi capaz de viver. O filho, a avó agora chamava de mãe, vivia em meio à pobreza, mas era amado e reconhecia nisso seu maior tesouro.

         Os pais... O encontro acontece. Mais uma criança virá ao mundo... Juram que vão amar a sua criança, esquecer o passado e recomeçar. Mas antes... só mais um trago
      Fim

              Contraponto, Canção em Segredo de Lya Luft que tive o prazer de conhecer no blog Arte e Café, a amiga Alba além de nos trazer essa doce poesia, também postou um video muito, muito lindo, se quiserem assistir basta dar um pulo lá!!!
Canção em Segredo


Dentro desta mulher
um anjo menino
brinca de ciranda na calçada
e tem fome de futuro.
Dentro desta mulher
uma criança se debruça na janela
vendo chegar o amor
e se julga imortal.


Dentro desta mulher
uma guerreira constrói sua vida
depois de parir filhos para o mundo.
Dentro desta mulher
outra mulher enterra o seu amor perdido
e mesmo assim espera.


(Dentro desta mulher
o mistério das coisas
finge dormir.) 
Até o próximo conto!

segunda-feira, 7 de março de 2011

Preso


E agora?... O que faria?... Tinha que fazer!...Não podia fazer!...Como Fazer?... Não faria!... Faria?... O que fazer?... Estava no inferno! Não sabia como havia chegado lá,... Não! Ele sabia sim!
O inferno tinha quatro metros quadrados, com uma estreita abertura gradeada por onde entravam e saiam. Ao lado uma parede, um vão que levava a ducha, em frente o boi, um buraco no chão onde eram feitas as necessidades, seu lar. Todo de cimento, frio, áspero, cinzento.
Ele estava saindo da boca quando eles chegaram, perderam o traficante, mas o encontraram. Ele tinha algumas com ele, foi o bastante, lá estava o traficante: ele.
Não importava o que dizia, fazia, era ele. O choro de sua mãe, não encontrará eco, encontrará ameaças. A sorte havia sido traçada, era ali que desfrutaria de seu futuro.
Em instantes os demais presos amontoados souberam: Traficante nada. É nóia! Rapazinho novo, belo ainda, logo na primeira noite sentiu-lhe penetrar toda a angustia e sofrimento que sentiria naquele lugar.
O lixo nóia, lixo para a policia, lixo para a justiça, lixo entre os condenados. Descobrirá ali que na escala do lixo, era o lixo-mor. Nunca furtará, nunca roubará, nunca estuprará, nunca matará. Como seus torturadores de cela haviam feito.
Fazia de tudo para ter droga. Apanhar era cotidiano. Dormia no boi, com o fedor e as baratas que saiam daquele buraco fétido. A comida, quando não lhe tomavam, era azeda. Em pouco tempo estava irreconhecível.
Ainda assim seu maior sofrimento era ver a face de sua mãe marcada pela dor de ver seu filho destruído. Rasgava-lhe o coração até o mais intimo de seu ser ver cada marca na face daquela que amava e nunca o abandonará. Sufocava-lhe o peito saber as humilhações pelas quais passava para ter aqueles momentos com ele.
Ele devia! Tinha que pagar, já não tinha como fazê-lo. O traficante propõe: Mate! Perdôo a divida! Te dou uma noite de nóia! Senão quem morre é você!!! O que faria?
Pela manhã encontram o corpo. Estava morto! Jamais teria coragem de matar a outrem. Sua pobre mãe, com as faces inundadas pelas lágrimas, via o descaso com que o corpo do filho era tratado. Como se mil facas lhe cortassem a alma, ela sofre como nunca sofreu na vida.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Novo conto: "Abstinência"; Comunicado; e, Novos selos.

Olá meus amigos, primeiramente quero agradecer a vocês, o Contos do Crack, com apenas um mês de vida, tem sido um sucesso. E agora ele tem vida própria e pediu para ser mais, é isso mesmo!
Sua verdadeira natureza se manifestou! É um blog de cunho social! Com a missão de combater os males da droga. Com esse intuito ele será ampliado tornando-se não apenas um blog de conscientização como tem sido até agora.
Esse Blog, metido a gente grande, deseja fazer mais. Ele decidiu que será um blog de apoio, iremos não somente alertar para o mal do crack, mas procurar ajudar o usuário a abandonar este vício, ajudar sua família a entender o que se passa e aconselhar a ambos como agir, onde encontrar ajuda, oferecer palavras de apoio e estimulo no duro caminho de volta.
Para isso nossa querida amiga do Eu e Meu Medo, Andréa Ávila, juntou-se ao Contos do Crack, vêm somar seus talentos para o desenvolvimento desta nova e ambiciosa meta. Nós já estamos trabalhando para esse fim e dentro em breve, coisa de dois meses, este será um blog completamente diferente, os contos continuarão sempre, mas estaremos oferecendo muito mais.
O Contos do Crack foi presenteado com mais dois lindos selos, aqui estão eles:
 Este foi presente da querida amiga Beth Muniz dona de um espaço muito especial em nossos corações, e outro neste mundo virtual, o Blog Travessia.
 E este segundo nos foi presenteado pela Lia do Blog Cute Gifts, tenho vontade de montar um novo blog apenas para encher das coisas lindas que encontramos em seu blog.
Nosso imenso carinho para as duas!!!
Porém, o nosso maior tesouro está nos seguidores, o fato deles colocarem seus rostos, seus nomes aqui, é o maior reconhecimento que podemos receber.

E agora o conto:

Abstinência

Ela chega com a noite, forte, imperiosa. Quer se impor. É à vontade.  A inquietação começa, as pernas não param. Mexem-se como que por si só, cada vez mais rápido. Ele se levanta. Começa a andar pelo quintal. Quando percebe já deu dezenas de voltas em torno da casa, mas não foi para a rua. Sente enjôo. Corre para o banheiro, vai vomitar, o vomito não vem.
A diarréia tem inicio. Nada acontece. Volta para o quintal. Seu corpo reclama. Ele manda parar. Não adianta. Passa as mãos pela testa, de novo, e de novo. Não adianta. O corpo deseja, ele deseja! Não!!! Grita para seu interior. Vai para o quarto, se deita e rola, rola de um lado para o outro, seu corpo geme em agonia, as lagrimas saem de seus olhos. Ele sofre!
A família a tudo assiste. Sabem que não podem fazer nada além de estar lá. Ele continua sofrendo, levanta e senta-se.  A dor não se vai, ele se encolhe, e estica, se encolhe e estica, e ela ainda está lá. Seca o rosto. As lágrimas voltam. Está tremendo. A agitação aumenta. Ele não se controla. Levanta. Anda de um lado para o outro, do outro para o um.
Quanto mais a lua ganha altura, pior fica. A tremedeira aumenta. A ânsia já não dá descanso. Suas pernas e mãos agitam-se como nunca. Tenta fixar seus pensamentos em qualquer coisa. Não consegue. Sente o cheiro. Sente o gosto. Não sente o efeito.
A noite começa a ir-se. Ele esfrega os cabelos quase os arrancando, seu corpo está exausto. Não consegue dormir. Sua mente está nela. Ela não está em sua mente. Começa a bater nos móveis. Sente fúria. Ódio. A família não reclama, esta feliz, ele ainda não ganhou a rua.
Não anda. Corre! Em direção ao que deseja, tosse, vomita, treme apenas com a expectativa de sentir aquele sabor. Cada vez mais rápido, e mais rápido e ainda mais rápido. Todo o resto não importa. Chega. Servem-lhe o que vai buscar. Vê uma lata na rua, a apanha. Prepara o cachimbo, carinhosamente, com cuidado, mas com pressa. A cinza é colocada. Sobre ela um farto pedaço, se esforça para controlar a tremedeira. Coloca a lata na boca, acende o isqueiro e traga com toda a força de seu imenso desejo...
Então acorda! Estava em casa. Era dia. Ainda exausto, mas bem. Aquela batalha fora ganha. Porém, a lua logo chegaria novamente e a guerra continuaria, batalha por batalha, noite após noite.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

O olhar de um menino.

 O menino estava alegre, havia brincado toda a manhã com seus amiguinhos no campão, agora iria para casa. Sua mãe havia mandado seu irmão buscá-lo para almoçar. Ele se dava muito bem com o irmão que sempre brincava com ele, o enchia de cócegas, ele se encolhia todo, pedia para parar, mas o brilho de alegria de seus olhos dizia para o irmão continuar, era seu irmãozão. No começo da tarde o irmão saí, não sem antes a mãe reclamar que ele já ia pra rua ficar com aquele bando de sem vergonhas e vagabundos, alertando-o para ter juízo.
Já é noite. O menino estava encostado em um canto, os olhos arregalados enquanto observava. Observava a mãe e seu irmão. Não entendia o que se passava. Seu irmão estava diferente, fedia a cigarro, as mãos estavam sujas, não havia brincado com ele. Entrou correndo, pegou o tênis novo, tênis que sua mãe ainda estava pagando, o enviou em uma sacola e se dirigia a porta quando tudo começou.
O menino tinha medo, tentava afastar-se... , mas não conseguia a parede não permitia, ainda que estivesse branco como um fantasma , olhos arregalados de pavor frente ao que via, comprimia seu corpo contra ela com força, como se fosse capaz de atravessá-la.
Virá à mãe perguntar pro irmão aonde iria com o tênis que ela estava se sacrificando tanto para pagar. O irmão não respondeu. Dirigiu-se para a porta, a mãe a havia trancado. Ele pede que ela abra, ela se nega e diz que ele não vai sair, ele começa a forçar a porta, ela manda que pare. –Para com isso a gente mal tem dinheiro pra comer você vai destruir a casa! Ele não ouve. Ela suplica. –Pelo amor de Deus meu filho para com isso. Olha como você tá, descansa, deita meu filho, olha como eu to. Ela tremia, sabia o que o filho havia feito, sabia o que ia fazer, e sofria imensamente por isso, ela estava desolada, as lágrimas rolavam por sua face.
O menino tremia, seu coração batia acelerado, o medo naqueles olhos... , olhos ainda inocentes. Que não muito tempo atrás brilhavam de alegria iluminando aquele pobre lar. Agora vivenciavam um momento de terror, o irmão estranho, a dor de sua mãe, o pavor entranhava-se nele.  
A mãe e o irmão se agarram, ele tentando chegar à porta ela tentando impedi-lo. Cada movimento visto por ele como que em câmera lenta, o atrito dura pouco tempo, a mãe judiada pela vida não tem como impedir o adolescente tomado pela droga. Ele a empurra bruscamente, antes mesmo que a queda termine, ele é tomado pela noite, à mãe chega ao chão.
Poucas horas depois. A viatura para em frente o barraco, os policiais não sabem como dar a noticia. O jovem havia invadido um quintal a procura de algo que mantivesse seu vicio, uma viatura notou o movimento, ao verem-no mandam que pare, ele se movimenta bruscamente, os policiais abrem fogo, ele morre.
Os policiais notam a porta semi-aberta e entram cautelosamente, demoram em absorver a situação que encontram. No chão próximo a porta um corpo sem vida, com a queda a mãe havia batido a cabeça em um objeto, a poça de sangue rodeando aquela face cansada e sofrida que antes insistia em continuar pelo amor aos filhos, agora sem vida.
No canto, inerte, balançando seu corpo para frente... e para trás...Olhos estáticos, sem vida, alheios a tudo a sua volta. Os policiais tentam falar com ele. Não responde, apenas continua a balançar... ritmadamente... para frente... para trás... para frente... para trás..., a inocência, o brilho... a vida em seus olhos perdida.