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sábado, 30 de abril de 2011

Sobre o crack

O QUE É?
Substância simpático mimética obtida da cocaína por processo químico estimulante da atividade mental fumada em cachimbos especiais atinge o sistema nervoso central em 5 a 10 segundos durando de 15 a 20 minutos

quarta-feira, 30 de março de 2011

O mesclado ou melado = crack + maconha - vida

Ele dixavou cuidadosamente a maconha, a deixou quase como pó. Cortou o papel, enrolou, abriu e colocou maconha nele. Com a tampa de uma caneta a espalhou por igual. Então pegou o saquinho, o abriu com pressa. La estava ela, a pedra. Começou a quebrar a pedra de crack em pequenos farelos e a espalhou sobre a maconha, parou um pouco antes do final. –Na pontinha é desperdício. Falou para si mesmo. E ele não queria desperdiçar. Enrolou tal qual um baseado comum. Mas não era um baseado comum, era um mesclado ou melado.
 Acendeu um cigarro. Precisava do cigarro. Pois com ele manteria o melado aceso, o crack apagava a maconha quando derretida ela passa de sólido a liquido e então a vapor, este que é tragado. Então o cigarro tinha que estar lá e a cada pega eram encostadas suas brasas, ponta a ponta. Ainda assim, o lado que continha a maconha cismava em queimar mais rápido. Ele pegava e passava saliva na maconha com o dedo para evitar isso, não podia desperdiçar!
A nóia já estava presente muito antes dele terminar o melado. Pensou que assim se manteria longe da pedra, mas só pensava nela. Correu a pegar o cachimbo, e o que dela restou, queimou.
A nóia só fez crescer. Ele queria mais. A batalha teve inicio! O que faria? Iria para a rua a buscar mais? Ligaria pedindo que lhe trouxessem mesmo sendo mais caro? Enquanto tentava pensar, ia tateando tudo a sua volta, verificando todos os vãos possíveis sempre a procura de algo que não existia.
Pegou a maconha e fez um baseadinho. Fumou. Se acalmou. Foi feliz, podia ter morrido com tanta mistura! Aos poucos a fissura da procura se foi. Sabia que não podia dirigir. Ligou... O numero tocou, tocou, tocou... Ninguém atendeu.
Por essa noite se salvou. A nóia não permitia que saí-se. O serviço de entrega estava fora do ar. O destino fora bom com ele. Cabia a ele agora ser bom com seu destino. Colocar em sua mente que a substituição não adiantava, o caminho de sua libertação era se afastar, não por estar na nóia, não por um telefone apenas tocar e sim...  por ele se amar.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Ela e Ele


Ela andava pela noite atrás daquilo que precisava: pedra. Como os usuários costumam chamar, ou peça, como alguns traficantes gostam que seja chamado. A não aceitação em casa fez com que caísse neste mundo de trevas. Ela não era aceita por ser uma transexual, uma menina em corpo de menino. Expulsa de seu lar vivia pelas ruas atrás de algo que a supri-se emocionalmente. Coisa que nunca encontrava adotando como solução o esquecimento que o crack proporcionava.
Certa noite ela se viu envolvida com ele, um negão, que achou lindo. Como havia feito um programa estava com dinheiro para sanar os seus desejos, pela droga e pelo corpo dele junto ao seu. Assim começaram a noite em um quintal de uma casa abandonada. Deram as primeiras tragadas na pedra. Depois disso o apetite dela por outros prazeres se foi, e ele nem ai, só queria fumar. E foram fumando até o momento em ela percebeu que não havia muito mais. Escondeu o que restava. E tentava se livrar dele que agora a perseguia vendo nela a fonte para satisfazer seu vicio.
Ele a agradou, a alisou, se esfregou. Mas os pensamentos dela já estavam distantes. Era só pedra. E ele de possível fonte de carinho para sanar sua carência, ainda que por um breve instante, passou a estorvo. Mas não queria largar do pé dela, e ela louca para dar mais uma tragada e não podia, caso fuma-se teria que compartilhar com ele e não havia o bastante, só havia para ela.
Foi quando ele cansado de querer agradar, começou a ameaçar. Foi quando aquelas enormes mãos que antes ela queria em seu corpo a alcançaram seu pescoço e começaram a sufocá-la. Ela viu, finalmente, o fim de seu sofrimento. Como se ansiosa por isso... Não reagiu. Ele pegou o que queria e desapareceu pela noite, deixando aquele jovem e frágil corpo jogado nas ruas.
O corpo foi encontrado. Demorou alguns dias até que sua mãe e pai tomassem conhecimento do ocorrido. Ainda conseguiram enterrar a filha. A cada dia que passava pai e mãe sofria. A visão do corpo morto da filha em seus olhos, o odor fétido em suas narinas, testemunhando o mal que haviam feito. Perseguidos eternamente por um ‘se’. Se eu tivesse feito isso... Se eu não tivesse feito aquilo... Tristeza e dor os consumiriam até o fim de suas vidas.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Contos do Crack "A casa da nóia III - Escolhas e Consequências"

A Casa da Nóia III – Escolhas e Conseqüências


Já era inicio de madrugada. Eles estavam reunidos na casa. A casa ficava em um escadão, um grande terreno no qual os irmãos haviam construído três pequenas casas. Com o tempo dois deles se viciaram terrivelmente. Os demais, com medo, partiram, até que apenas eles restaram. Mesmo antes disso os dois já recebiam visitas em casa, mas agora o entra e sai era constante e ininterrupto. A vizinhança tinha pavor, não dos irmãos, e sim das visitas. As brigas eram constantes, um acusando ao outro de ter e não compartilhar.


Duas horas. Ouvem o portão bater e vários passos, de várias pessoas entrando rapidamente. Um deles vai ver quem estava chegando. É o primeiro a ser jogado ao chão com imensa violência. Eles adentram a casa, os nóias tentam se esconder. Sentem medo! Não adianta. Cada canto é revistado, atrás do sofá rasgado, dentro do velho guarda roupa, todo o banheiro. Todos são pegos e jogados no quintal.
Os visitantes, homens mascarados, armados e sem dó, torturam cada um deles. Esmurram, chutam, dão coronhadas. Dentes se soltam, ossos se quebram, sangue escorre. Os dois irmãos são os que mais sofrem. E mesmo neste caos, nesta loucura, com seus corações acelerados e seus corpos arruinados, pensam no crack, na pedra. Ainda anestesiados não tem noção do estrago em seus corpos.
Enfileiram os nóias. Estes tremem, pedem, ofendem, suplicam, de nada lhes vale isso. Os homens encapuzados sabendo que não tem muito tempo resolvem terminar o serviço logo. Preparam as armas. Disparam... Disparam... indiscriminadamente. Os gritos se elevam na noite. Os corpos desabam na terra.
Eles se vão tão rapidamente quanto chegaram desaparecendo na escuridão. Os vizinhos, que temerosos se mantiveram quietos e silenciosos, aos poucos criam coragem e vagarosamente se aproximam da casa. Chamam a policia e com eles adentram pelo portão vendo aquela cena que nunca se apagaria de suas memórias. Corpos caídos uns sobre os outros, sangue, buracos de balas nas paredes e muitas capsulas pelo chão.
Ainda assim, como que por milagre os irmãos e mais alguns estavam vivos. Uns morreram no caminho do hospital, outros morreram lá. Os irmãos sobreviveram. Um se mudou, foi para o interior, tamanha a adversidade pela qual passou que o vicio largou, seguiu em frente e prosperou. O outro seguiu com a amada maldita e seu fim logo encontrou.
Toda escolha tem sua conseqüência. Nunca é tarde para repensar o que desejamos e por mais difícil que seja, sempre existe a possibilidade de um amanhã melhor do que o hoje depende apenas de darmos o primeiro passo nessa direção.

sábado, 12 de março de 2011

Contos do Crack apresenta "Pais e filhos... do crack".

          

Pais e filhos... do crack.

-Eu quero! Ela pensava e chutava a mãe. A mãe merecia os chutes! Também queria. Não via à hora de conseguir. A filha chutava mais forte. -Annnda! Eu quero! Chuta novamente. A mãe consegue, a expectativa é grande. Elas fumam com prazer. A filha se aquieta, tranqüila, junto a mãe, que logo entra em trabalho de parto.

-Pai, para!!! Não faz isso pai, não fuma isso! O pai parecia um zumbi. Inerte, sem reação, exceto a de procurar a droga. O filho assistindo. -Pai... Se o senhor não para vo fumâ junto! E pega um cachimbo. O pai sem reação assiste... Ou não, ao filho preparar o cachimbo. Ele fuma. O filho e o pai, só querem o crack agora. O pai força o filho a tudo para obter a droga para eles. O filho faz e se submete a qualquer um por migalhas.

A filha na incubadora. Treme. Quer mais!

O filho violado. Sofre. Sente todo o mal do mundo!

A mãe descobre em um raro momento de lucidez o mal que fez a filha. A dor vem com toda a sua potência. O momento de lucidez se vai, e ela está novamente nas ruas.

O pai sabe que o destino do filho é morrer, tem pena, mas logo quer mais. A avó, tal qual uma heroína, mãe ao quadrado, vem em socorro do neto, o pai deixa-o ir e ele se vai.

Um casal, que nunca havia sido agraciado com a benção de um filho, pode adotar a filha da nóia, que, mesmo com seqüelas, foi capaz de viver. O filho, a avó agora chamava de mãe, vivia em meio à pobreza, mas era amado e reconhecia nisso seu maior tesouro.

         Os pais... O encontro acontece. Mais uma criança virá ao mundo... Juram que vão amar a sua criança, esquecer o passado e recomeçar. Mas antes... só mais um trago
      Fim

              Contraponto, Canção em Segredo de Lya Luft que tive o prazer de conhecer no blog Arte e Café, a amiga Alba além de nos trazer essa doce poesia, também postou um video muito, muito lindo, se quiserem assistir basta dar um pulo lá!!!
Canção em Segredo


Dentro desta mulher
um anjo menino
brinca de ciranda na calçada
e tem fome de futuro.
Dentro desta mulher
uma criança se debruça na janela
vendo chegar o amor
e se julga imortal.


Dentro desta mulher
uma guerreira constrói sua vida
depois de parir filhos para o mundo.
Dentro desta mulher
outra mulher enterra o seu amor perdido
e mesmo assim espera.


(Dentro desta mulher
o mistério das coisas
finge dormir.) 
Até o próximo conto!

segunda-feira, 7 de março de 2011

Preso


E agora?... O que faria?... Tinha que fazer!...Não podia fazer!...Como Fazer?... Não faria!... Faria?... O que fazer?... Estava no inferno! Não sabia como havia chegado lá,... Não! Ele sabia sim!
O inferno tinha quatro metros quadrados, com uma estreita abertura gradeada por onde entravam e saiam. Ao lado uma parede, um vão que levava a ducha, em frente o boi, um buraco no chão onde eram feitas as necessidades, seu lar. Todo de cimento, frio, áspero, cinzento.
Ele estava saindo da boca quando eles chegaram, perderam o traficante, mas o encontraram. Ele tinha algumas com ele, foi o bastante, lá estava o traficante: ele.
Não importava o que dizia, fazia, era ele. O choro de sua mãe, não encontrará eco, encontrará ameaças. A sorte havia sido traçada, era ali que desfrutaria de seu futuro.
Em instantes os demais presos amontoados souberam: Traficante nada. É nóia! Rapazinho novo, belo ainda, logo na primeira noite sentiu-lhe penetrar toda a angustia e sofrimento que sentiria naquele lugar.
O lixo nóia, lixo para a policia, lixo para a justiça, lixo entre os condenados. Descobrirá ali que na escala do lixo, era o lixo-mor. Nunca furtará, nunca roubará, nunca estuprará, nunca matará. Como seus torturadores de cela haviam feito.
Fazia de tudo para ter droga. Apanhar era cotidiano. Dormia no boi, com o fedor e as baratas que saiam daquele buraco fétido. A comida, quando não lhe tomavam, era azeda. Em pouco tempo estava irreconhecível.
Ainda assim seu maior sofrimento era ver a face de sua mãe marcada pela dor de ver seu filho destruído. Rasgava-lhe o coração até o mais intimo de seu ser ver cada marca na face daquela que amava e nunca o abandonará. Sufocava-lhe o peito saber as humilhações pelas quais passava para ter aqueles momentos com ele.
Ele devia! Tinha que pagar, já não tinha como fazê-lo. O traficante propõe: Mate! Perdôo a divida! Te dou uma noite de nóia! Senão quem morre é você!!! O que faria?
Pela manhã encontram o corpo. Estava morto! Jamais teria coragem de matar a outrem. Sua pobre mãe, com as faces inundadas pelas lágrimas, via o descaso com que o corpo do filho era tratado. Como se mil facas lhe cortassem a alma, ela sofre como nunca sofreu na vida.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Novo conto: "Abstinência"; Comunicado; e, Novos selos.

Olá meus amigos, primeiramente quero agradecer a vocês, o Contos do Crack, com apenas um mês de vida, tem sido um sucesso. E agora ele tem vida própria e pediu para ser mais, é isso mesmo!
Sua verdadeira natureza se manifestou! É um blog de cunho social! Com a missão de combater os males da droga. Com esse intuito ele será ampliado tornando-se não apenas um blog de conscientização como tem sido até agora.
Esse Blog, metido a gente grande, deseja fazer mais. Ele decidiu que será um blog de apoio, iremos não somente alertar para o mal do crack, mas procurar ajudar o usuário a abandonar este vício, ajudar sua família a entender o que se passa e aconselhar a ambos como agir, onde encontrar ajuda, oferecer palavras de apoio e estimulo no duro caminho de volta.
Para isso nossa querida amiga do Eu e Meu Medo, Andréa Ávila, juntou-se ao Contos do Crack, vêm somar seus talentos para o desenvolvimento desta nova e ambiciosa meta. Nós já estamos trabalhando para esse fim e dentro em breve, coisa de dois meses, este será um blog completamente diferente, os contos continuarão sempre, mas estaremos oferecendo muito mais.
O Contos do Crack foi presenteado com mais dois lindos selos, aqui estão eles:
 Este foi presente da querida amiga Beth Muniz dona de um espaço muito especial em nossos corações, e outro neste mundo virtual, o Blog Travessia.
 E este segundo nos foi presenteado pela Lia do Blog Cute Gifts, tenho vontade de montar um novo blog apenas para encher das coisas lindas que encontramos em seu blog.
Nosso imenso carinho para as duas!!!
Porém, o nosso maior tesouro está nos seguidores, o fato deles colocarem seus rostos, seus nomes aqui, é o maior reconhecimento que podemos receber.

E agora o conto:

Abstinência

Ela chega com a noite, forte, imperiosa. Quer se impor. É à vontade.  A inquietação começa, as pernas não param. Mexem-se como que por si só, cada vez mais rápido. Ele se levanta. Começa a andar pelo quintal. Quando percebe já deu dezenas de voltas em torno da casa, mas não foi para a rua. Sente enjôo. Corre para o banheiro, vai vomitar, o vomito não vem.
A diarréia tem inicio. Nada acontece. Volta para o quintal. Seu corpo reclama. Ele manda parar. Não adianta. Passa as mãos pela testa, de novo, e de novo. Não adianta. O corpo deseja, ele deseja! Não!!! Grita para seu interior. Vai para o quarto, se deita e rola, rola de um lado para o outro, seu corpo geme em agonia, as lagrimas saem de seus olhos. Ele sofre!
A família a tudo assiste. Sabem que não podem fazer nada além de estar lá. Ele continua sofrendo, levanta e senta-se.  A dor não se vai, ele se encolhe, e estica, se encolhe e estica, e ela ainda está lá. Seca o rosto. As lágrimas voltam. Está tremendo. A agitação aumenta. Ele não se controla. Levanta. Anda de um lado para o outro, do outro para o um.
Quanto mais a lua ganha altura, pior fica. A tremedeira aumenta. A ânsia já não dá descanso. Suas pernas e mãos agitam-se como nunca. Tenta fixar seus pensamentos em qualquer coisa. Não consegue. Sente o cheiro. Sente o gosto. Não sente o efeito.
A noite começa a ir-se. Ele esfrega os cabelos quase os arrancando, seu corpo está exausto. Não consegue dormir. Sua mente está nela. Ela não está em sua mente. Começa a bater nos móveis. Sente fúria. Ódio. A família não reclama, esta feliz, ele ainda não ganhou a rua.
Não anda. Corre! Em direção ao que deseja, tosse, vomita, treme apenas com a expectativa de sentir aquele sabor. Cada vez mais rápido, e mais rápido e ainda mais rápido. Todo o resto não importa. Chega. Servem-lhe o que vai buscar. Vê uma lata na rua, a apanha. Prepara o cachimbo, carinhosamente, com cuidado, mas com pressa. A cinza é colocada. Sobre ela um farto pedaço, se esforça para controlar a tremedeira. Coloca a lata na boca, acende o isqueiro e traga com toda a força de seu imenso desejo...
Então acorda! Estava em casa. Era dia. Ainda exausto, mas bem. Aquela batalha fora ganha. Porém, a lua logo chegaria novamente e a guerra continuaria, batalha por batalha, noite após noite.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

O olhar de um menino.

 O menino estava alegre, havia brincado toda a manhã com seus amiguinhos no campão, agora iria para casa. Sua mãe havia mandado seu irmão buscá-lo para almoçar. Ele se dava muito bem com o irmão que sempre brincava com ele, o enchia de cócegas, ele se encolhia todo, pedia para parar, mas o brilho de alegria de seus olhos dizia para o irmão continuar, era seu irmãozão. No começo da tarde o irmão saí, não sem antes a mãe reclamar que ele já ia pra rua ficar com aquele bando de sem vergonhas e vagabundos, alertando-o para ter juízo.
Já é noite. O menino estava encostado em um canto, os olhos arregalados enquanto observava. Observava a mãe e seu irmão. Não entendia o que se passava. Seu irmão estava diferente, fedia a cigarro, as mãos estavam sujas, não havia brincado com ele. Entrou correndo, pegou o tênis novo, tênis que sua mãe ainda estava pagando, o enviou em uma sacola e se dirigia a porta quando tudo começou.
O menino tinha medo, tentava afastar-se... , mas não conseguia a parede não permitia, ainda que estivesse branco como um fantasma , olhos arregalados de pavor frente ao que via, comprimia seu corpo contra ela com força, como se fosse capaz de atravessá-la.
Virá à mãe perguntar pro irmão aonde iria com o tênis que ela estava se sacrificando tanto para pagar. O irmão não respondeu. Dirigiu-se para a porta, a mãe a havia trancado. Ele pede que ela abra, ela se nega e diz que ele não vai sair, ele começa a forçar a porta, ela manda que pare. –Para com isso a gente mal tem dinheiro pra comer você vai destruir a casa! Ele não ouve. Ela suplica. –Pelo amor de Deus meu filho para com isso. Olha como você tá, descansa, deita meu filho, olha como eu to. Ela tremia, sabia o que o filho havia feito, sabia o que ia fazer, e sofria imensamente por isso, ela estava desolada, as lágrimas rolavam por sua face.
O menino tremia, seu coração batia acelerado, o medo naqueles olhos... , olhos ainda inocentes. Que não muito tempo atrás brilhavam de alegria iluminando aquele pobre lar. Agora vivenciavam um momento de terror, o irmão estranho, a dor de sua mãe, o pavor entranhava-se nele.  
A mãe e o irmão se agarram, ele tentando chegar à porta ela tentando impedi-lo. Cada movimento visto por ele como que em câmera lenta, o atrito dura pouco tempo, a mãe judiada pela vida não tem como impedir o adolescente tomado pela droga. Ele a empurra bruscamente, antes mesmo que a queda termine, ele é tomado pela noite, à mãe chega ao chão.
Poucas horas depois. A viatura para em frente o barraco, os policiais não sabem como dar a noticia. O jovem havia invadido um quintal a procura de algo que mantivesse seu vicio, uma viatura notou o movimento, ao verem-no mandam que pare, ele se movimenta bruscamente, os policiais abrem fogo, ele morre.
Os policiais notam a porta semi-aberta e entram cautelosamente, demoram em absorver a situação que encontram. No chão próximo a porta um corpo sem vida, com a queda a mãe havia batido a cabeça em um objeto, a poça de sangue rodeando aquela face cansada e sofrida que antes insistia em continuar pelo amor aos filhos, agora sem vida.
No canto, inerte, balançando seu corpo para frente... e para trás...Olhos estáticos, sem vida, alheios a tudo a sua volta. Os policiais tentam falar com ele. Não responde, apenas continua a balançar... ritmadamente... para frente... para trás... para frente... para trás..., a inocência, o brilho... a vida em seus olhos perdida.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

A Casa da Nóia II - Paranóia

Vamos... caralho, um bar, onde tem um bar? Ali! - Ele para o carro e desce, compra isqueiros e cigarros, sabe que vai precisar. Segue adiante, conheceu aquele lugar a pouco tempo, foi apresentado ao dono do barraco a pouco tempo, esse se dispôs a recebê-lo quando precisasse, lá poderia fazer o que queria. Antes passa nos ‘meninos’, não poderia chegar de mãos vazias.
Chega e é bem recebido, sabiam que ele fora fumar, em segundos tem um cachimbo na
mão e o dono ao seu lado esperando sua recompensa por ceder o espaço. Ele tira uma pedra do bolso e lhe entrega, o dono sorri e o manda ficar a vontade, indo para o quarto, ele permanece na cozinha se senta em um banco e prepara o cachimbo, deixa um maço de cigarros do seu lado.
Dá o primeiro trago, sente o sabor da pedra, aspira a fumaça cada vez com mais vontade, com mais força até que não consegue mais puxar, tira o bimbo da boca e segura a fumaça, da mesma forma que alguém submerso segura a respiração para não se afogar, não agüenta mais, solta, e aquela nuvem se forma, ele está completamente louco, começa a olhar em volta, tem inicio a paranóia, coloca o cachimbo em frente e sem trocar a cinza põe outro pega sobre ele, e novamente: aspira... segura... solta. Começa a tatear a mesa a procura de algum pedaço, pedaço que ele sabe que não perdeu, mas a nóia o obriga a fazê-lo.
A essa altura o dono e outras visitas já sabem que ele está fora de si e então
começa a pedição: - Me arruma um pega? – Me arruma um cigarro? – Me empresta o isqueiro? Ele já sabia que isso iria ocorrer, por isso comprou mais de um maço de cigarros e mais de um isqueiro. Um para emprestar, mas o dele era dele.
Tem inicio as andanças, as nóias viam que ele ia tragar, era à hora na qual elas começavam a ir a cozinha a cada segundo, queriam aproveitar o momento para roubar-lhe a droga que estava sobre a mesa no momento de distração, ele sabia, notava, ouvia a conversa do outro lado, o dono dizia – Mas cadê? Vocês pegaram, eu quero minha parte.
Chegam novos nóias, e todos se aproveitam da situação, sabiam que ele bancaria a noite. A droga acaba. Ele pede ao dono que vá buscar mais dez, eles não tiram os olhos da carteira dele. A droga chega, ele recomeça, sabia que havia sido roubado novamente, o dono levara um isqueiro, iria abrir alguns pacotes tirar parte da droga e fechar novamente, mas ele nada conseguia fazer.
Ele ouvia, era incapaz de reagir, mas ouvia tudo ao seu redor. – Pega a chave do carro, a gente leva ele nem vai ver! Tá muito louco tem que se fuder! O cara ta tirando, fica fumando e a gente só olhando. Mentira, ele havia sido generoso e distribuído droga a todos que lá estavam não por eles, mas para tentar ter algum sossego sem que lhe pedissem, inutilmente, parecia que não havia dado nada, pois no instante seguinte lá estavam eles de novo, aquele grupo, pressionando por mais.
Ele continuava escutando. – Sabe onde tem boa noite cinderela? A gente leva o carro e ainda pega um barão pra entrega ele. Sente medo, mas não é capaz de reagir, de sair daquele lugar, não enquanto ainda tivesse droga, insistem para que ele se banhe apenas para poder roubá-lo, ele não vai. Pedem o celular emprestado, ele não empresta, Sabe que nunca mais o verá caso o faça.
A droga acaba, ele não tem como sair dali ainda, precisa se recuperar para poder dirigir, caso o carro ainda esteja onde ele o havia deixado. Querem que ele tome aguá, ele não aceita indo pegar direto na torneira, continua louco, mas precisa ir. A paranóia o consome enquanto ele vasculha o chão e a mesa atrás de qualquer farelo, não encontra nada.
Do outro lado continuam fumando, ele pede ninguém tem para lhe dar, mas continuam fumando. Ele quer ir, mas fica. Ele sente os olhares sobre si, acham que ele está escondendo algo. Imaginam que ainda tem dinheiro, tem o celular, tem o carro. O dono do barraco chega e põe umas facas sobre o armário, ele tem medo.
Com o sol quase nascendo ele sai de lá, ainda vivo, teme pelo carro, ainda assim não é o primeiro lugar para o qual ele vai, primeiro passa nos meninos, eles estavam certos, ele ainda tinha dinheiro, mas a nóia o forçou a sair daquele lugar, o medo, mas ainda queria fumar, pega o carro muito louco, como por milagre deixa de bater em uma moto, é xingado. Chega ao novo lugar, ali teria paz. Aluga um quarto e recomeça agora sozinho.
Horas depois, a recepção verifica que o seu período está vencendo. –É hora de chamar aquele drogado dos quintos, nunca mais vai entrar aqui. O interfone começa a tocar... toca... toca... toca... Ninguém atende. Ele, enfim, encontrou a paz.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Amor!

Ele estava muito contente, fora um bom dia. Havia ido ao cartório para dar entrada nos papéis do casamento, dera tudo certo. Entregou alguns trabalhos e recebeu. Voltava para casa feliz. Ao chegar beija sua avó, e diz que vai para o seu quarto, que era uma casinha que havia nos fundos. Chegando lá começa a se preparar para fumar. Sua avó sabia o que ele pretendia e se entristecia muito com o vicio do neto. Sua mãe ainda estava no trabalho, só chegaria por volta da meia-noite.
Ele fuma... fuma... e torna a fumar, já é tarde quando a droga acaba. Ele teve que parar por algum tempo, pois a noiva e a avó imploravam na janela. –Para, pelo amor de Deus, para meu amor, o que vai ser de nossa vida. Ele implorava para que Elas descessem e o deixassem terminar. Elas desistem e descem, a noiva pega seu filho e vai para casa. Ele continuou.
Agora estava descendo, chama a avó para que abrisse a porta, ele queria jantar e trocar de roupa, a que estava fedia a pedra. A avó que tantas vezes antes havia aberto a porta se nega a fazê-lo daquela vez, ela sente que não deve, ela sente algo que nunca sentiu antes, não nessa situação, medo, medo de seu neto mais carinhoso, entrega-lhe a roupa, a comida ele prefere nem pegar, e sobe novamente.
Preocupada ela resolve pegar algo no varal apenas para ver como ele estava, ao chegar lá em cima vê um vulto encostado na porta, por causa da escuridão não distingue quem é, supõe que seja o neto e pergunta o que ele estava fazendo ali, não há resposta. Ela sente a espinha gelar, e desce correndo trancando-se em casa, pensa em ligar para a filha, mas esta não poderia deixar o trabalho para ir até lá e faltava pouco tempo para ela chegar. A mãe chega e a avó relata a situação, a mãe apreensiva, e que tanto já havia sofrido, sobe e vai ver se há algum estranho no quintal, não vê ninguém, chega à porta da casa e acende a luz.
Ele também sofria, sofria muito, não por ele mesmo, mas pelas pessoas que amava, sabia o mal que estava fazendo a elas, a sua mãe que tanto procurara ajudá-lo, o havia internado, ido atrás dele pelas ruas, sua avó que sofria e orava sem parar pelo neto, sua futura esposa que sempre acreditara que ele fosse capaz de vencer o vicio, tudo isso lhe doía na alma mais do que qualquer coisa, ainda assim a droga era cruel, o vicio pedia mais. Como ele poderia vencer, como acabar com toda aquela dor que ele trazia para elas... Elas, que ele tanto amava.
Ao acender a luz a mãe solta um grito, um grito de dor e lamuria, desce correndo para a outra casa, a avó vem ao seu encontro querendo saber o que houvera, a mãe só consegue dizer que seu amado filho estava morto, havia se enforcado. Nos dias seguintes apenas se perguntavam por que ele havia feito aquilo sem compreender que ele o fizera por elas. Sim, por amor a elas ele não suportava vê-las sofrendo e não conseguia se livrar do vicio, essa foi a maneira que ele encontrou para dizer uma ultima vez: Eu amo vocês! Sejam felizes.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

A barraquinha de frutas


Era madrugada, eles não sabiam o que fazer para conseguir dinheiro, precisavam de dinheiro, sem dinheiro não havia droga. Era um grupo de cinco, um garoto, dois rapazes, uma senhora e uma jovem, já estavam se drogando há horas, alguns há dias, quase que ininterruptamente.
Eles viram a barraquinha de frutas ao longe, havia um senhor tomando conta dela. Mais dormindo que acordado. A jovem tem uma idéia, ela se aproxima da barraca e puxa conversa com o senhor, se oferece por cinco reais, ele concorda e a leva para trás da barraca.
Enquanto isso, a senhora, macaca velha naquele mundo, se aproxima da barraca e rouba todo o dinheiro que lá há, e se manda, os outros vendo que teriam droga a acompanham. O moleque cumpre seu dever, e vai buscar a pedra, enquanto ela brinca com os outros dois, eles sabem que terão a sua recompensa mesmo tendo que suportar aquela mulher os tocando, a perspectiva da droga os fazia tolerar.
O moleque chega e entrega a droga a senhora, seus corações aceleram, ela tira seu cachimbo, um cachimbo feito com a capsula de uma bala, a capsula era furada em um dos lados no qual se encaixava um pedaço de antena e fechado em cima com papel alumínio no qual eram feitos vários pequenos furos onde era colocada a cinza e sobre ela a pedra, para fixar os pedaços usava plástico derretido.
Ela deu o primeiro trago, e passou o aparato para o jovem que melhor fingiu gostar dela, sobre ele colocou um generoso pedaço, e assim foi sucessivamente, cachimbo de boca em boca. Quando a droga acabou, os rapazes tomaram seu rumo e largaram à senhora encostada em um banco de praça.
A droga importava tanto que nem mesmo notaram a falta da jovem que havia ficado na barraca ‘entretendo’ o senhor. Os rapazes então se lembraram dela, quem sabe ela teria conseguido mais, ao irem em direção a barraca, o último lugar no qual a haviam visto, assustaram-se. Na barraca havia vários carros de policia, e no chão, um corpo coberto com um plástico negro.
O senhor da barraca havia sido morto com a própria faca que usava para cortar frutas para os seus clientes, a moça não havia escapado, os policiais a prenderam. Ela avistou o resto do grupo que estava com ela antes e os apontou para os policiais. O garoto escapou, um dos jovens acabou alvejado pelos policiais, o outro foi levado, não sem antes apanhar como nunca apanhou na vida, e ele sabia que se abrisse a boca morreria. Naquela noite o garoto se encontrou novamente com aquela senhora pelas ruas, e juntos fumaram, fumavam enquanto esperavam a sua vez.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Sorte


Já são quatro horas, a noite passou rápido, já que ele estava distraído, fumando, mas ele não fumava, não cigarro. De qualquer maneira ele sabia que precisaria dele, sua cinza era importante, por isso comprou vários maços, isqueiro e o que importava: a droga.
Mas isso foi no inicio da noite, horas já haviam se passado, ele nem mesmo havia passado em casa após o trabalho, foi direto ao fumo, e fumou, com vontade e desejo, até agora.
Agora a droga acabou. Ele tinha crédito na boca, mas só ele poderia pegar, não havia como mandar outra pessoa, assim ele foi. Caminhou até o pé do morro e começou a subir suas vielas, ao encontrar o vendedor pegou o que desejava, e colocou no bolso da camisa.
Estava tão louco que não notou o súbito desespero do traficante, que após servi-lo saiu em disparada. Começou a descer o morro, ao sair da viela se depara com várias viaturas, seu raciocínio estava lento e mal pode compreender a situação, simplesmente continuou andando em direção a policia.
Ao se aproximar mandaram-no levantar as mãos e um policial verificou sua cintura, apalpando a procura de armas, e a droga estava apenas um pouco acima. O policial o dispensa, pensando que ele está indo trabalhar.
Ainda abobalhado pela droga ele segue andando, um certo alivio o percorre, afinal, ele vai poder fumar sua droga em paz. Eles não a tiraram dele. Dias depois ele percebe a sorte que teve, e jura não fazer mais aquilo, nunca mais fumaria, bom ele tinha direito a uma despedida, então aquela noite seria a ultima. Foi assim que pensou, e continuou pensando assim: aquela próxima noite seria a ultima, sempre a próxima. A última noite chegou, mas não porque ele não foi fumar, e sim porque sua ‘sorte’ acabou.