Vamos... caralho, um bar, onde tem um bar? Ali! - Ele para o carro e desce, compra isqueiros e cigarros, sabe que vai precisar. Segue adiante, conheceu aquele lugar a pouco tempo, foi apresentado ao dono do barraco a pouco tempo, esse se dispôs a recebê-lo quando precisasse, lá poderia fazer o que queria. Antes passa nos ‘meninos’, não poderia chegar de mãos vazias.
Chega e é bem recebido, sabiam que ele fora fumar, em segundos tem um cachimbo na
mão e o dono ao seu lado esperando sua recompensa por ceder o espaço. Ele tira uma pedra do bolso e lhe entrega, o dono sorri e o manda ficar a vontade, indo para o quarto, ele permanece na cozinha se senta em um banco e prepara o cachimbo, deixa um maço de cigarros do seu lado.
Dá o primeiro trago, sente o sabor da pedra, aspira a fumaça cada vez com mais vontade, com mais força até que não consegue mais puxar, tira o bimbo da boca e segura a fumaça, da mesma forma que alguém submerso segura a respiração para não se afogar, não agüenta mais, solta, e aquela nuvem se forma, ele está completamente louco, começa a olhar em volta, tem inicio a paranóia, coloca o cachimbo em frente e sem trocar a cinza põe outro pega sobre ele, e novamente: aspira... segura... solta. Começa a tatear a mesa a procura de algum pedaço, pedaço que ele sabe que não perdeu, mas a nóia o obriga a fazê-lo.
A essa altura o dono e outras visitas já sabem que ele está fora de si e então
começa a pedição: - Me arruma um pega? – Me arruma um cigarro? – Me empresta o isqueiro? Ele já sabia que isso iria ocorrer, por isso comprou mais de um maço de cigarros e mais de um isqueiro. Um para emprestar, mas o dele era dele.
Tem inicio as andanças, as nóias viam que ele ia tragar, era à hora na qual elas começavam a ir a cozinha a cada segundo, queriam aproveitar o momento para roubar-lhe a droga que estava sobre a mesa no momento de distração, ele sabia, notava, ouvia a conversa do outro lado, o dono dizia – Mas cadê? Vocês pegaram, eu quero minha parte.
Chegam novos nóias, e todos se aproveitam da situação, sabiam que ele bancaria a noite. A droga acaba. Ele pede ao dono que vá buscar mais dez, eles não tiram os olhos da carteira dele. A droga chega, ele recomeça, sabia que havia sido roubado novamente, o dono levara um isqueiro, iria abrir alguns pacotes tirar parte da droga e fechar novamente, mas ele nada conseguia fazer.
Ele ouvia, era incapaz de reagir, mas ouvia tudo ao seu redor. – Pega a chave do carro, a gente leva ele nem vai ver! Tá muito louco tem que se fuder! O cara ta tirando, fica fumando e a gente só olhando. Mentira, ele havia sido generoso e distribuído droga a todos que lá estavam não por eles, mas para tentar ter algum sossego sem que lhe pedissem, inutilmente, parecia que não havia dado nada, pois no instante seguinte lá estavam eles de novo, aquele grupo, pressionando por mais.
Ele continuava escutando. – Sabe onde tem boa noite cinderela? A gente leva o carro e ainda pega um barão pra entrega ele. Sente medo, mas não é capaz de reagir, de sair daquele lugar, não enquanto ainda tivesse droga, insistem para que ele se banhe apenas para poder roubá-lo, ele não vai. Pedem o celular emprestado, ele não empresta, Sabe que nunca mais o verá caso o faça.
A droga acaba, ele não tem como sair dali ainda, precisa se recuperar para poder dirigir, caso o carro ainda esteja onde ele o havia deixado. Querem que ele tome aguá, ele não aceita indo pegar direto na torneira, continua louco, mas precisa ir. A paranóia o consome enquanto ele vasculha o chão e a mesa atrás de qualquer farelo, não encontra nada.
Do outro lado continuam fumando, ele pede ninguém tem para lhe dar, mas continuam fumando. Ele quer ir, mas fica. Ele sente os olhares sobre si, acham que ele está escondendo algo. Imaginam que ainda tem dinheiro, tem o celular, tem o carro. O dono do barraco chega e põe umas facas sobre o armário, ele tem medo.
Com o sol quase nascendo ele sai de lá, ainda vivo, teme pelo carro, ainda assim não é o primeiro lugar para o qual ele vai, primeiro passa nos meninos, eles estavam certos, ele ainda tinha dinheiro, mas a nóia o forçou a sair daquele lugar, o medo, mas ainda queria fumar, pega o carro muito louco, como por milagre deixa de bater em uma moto, é xingado. Chega ao novo lugar, ali teria paz. Aluga um quarto e recomeça agora sozinho.
Horas depois, a recepção verifica que o seu período está vencendo. –É hora de chamar aquele drogado dos quintos, nunca mais vai entrar aqui. O interfone começa a tocar... toca... toca... toca... Ninguém atende. Ele, enfim, encontrou a paz.