Ele sente o sol forte em seu rosto, abre os olhos, pessoas passam por ele vindas de todos os lados, indo em todas as direções, passam como se não o vissem, apenas desviam como se fizesse parte daquele cenário deprimente de concreto em seu caminho, invisível, inexistente. Sente dor, fome, calor, muito calor, levanta-se meio tonto, sem ver direito com os olhos remelados, procura nos bolsos da roupa tão suja quanto ele próprio, não encontra nada. Começa a andar pelas ruas, devagar, sem rumo. Dor, fome, calor e vazio o preenchem.
Esgueira-se entre a multidão. A fome o faz parar diante de uma maquina de churrasco grego, ele observa a carne girar e o atendente cortá-la para fazer os lanches dos clientes, seus olhos até então semicerrados se abrem, o estômago ruge como um leão faminto.
Ao notá-lo o atendente fecha a cara e se prepara para fazê-lo sair dali, sua presença afasta os clientes, seu cheiro é terrível, sua cara chupada, horrorosa para uma criança, as mulheres agarram as bolsas, os homens deixam claro no olhar a desconfiança.
Quando o atendente se aproxima para afastá-lo um senhor diz para lhe dar um lanche. Ele acompanha cada corte feito na carne, está sendo colocada no pão e junto com ela uma salada rala. Pega o lanche sem desviar os olhos dele nem mesmo no momento em que o atendente manda-o ir comer lá longe.
Quase que hipnotizado, ele suspira fundo e morde o lanche fechando os olhos de prazer e mastiga aquilo como se fosse o melhor banquete do mundo, vendido a cinqüenta centavos, e nem mesmo a água colorida que dizem ser o suco que acompanha o lanche ele pôde tomar.
Segue andando pelas ruas do centro, e começa a pedir esmola para as pessoas que lhe viram a cara, depois de muito tempo, juntou o bastante para o que queria. Saí apressado, agora os passos parecem determinados, sabe para onde deve ir.
Chega ao local, olha em volta, está impaciente, ele os vê. Vai até eles, entrega o dinheiro, recebe um pacotinho, saí apressado. Agora olha para o chão a procura de algo, encontra uma lata de refrigerante na guia, a pega, amassa devagar e começa a furá-la em um dos lados, coloca aquilo na boca e experimenta, assopra de um lado e sente o ar sair pelo outro, agora puxa e o ar vem até ele, funciona.
Com algumas moedas vai até um marreteiro e compra cigarro e isqueiro, volta a caminhar agora quase em desespero, sente o ar faltar, as mãos tremerem, tem pressa, precisa de uma tragada.
Encontra uma rua menos movimentada, encosta e acende o cigarro, não se importa em fumá-lo, só deseja a cinza que ele coloca cuidadosamente sobre os buracos que abriu na lata. Depois pegou o pacotinho, dentro dele havia uma pequena pedra amarelada, meio queimada, ele quebra um pedaço, a tremedeira atrapalha, ele arruma, põe a lata na boca, acende o isqueiro e queima a pedra, tragando a fumaça pelo cachimbo improvisado.
Antes mesmo de terminar de tragar seus olhos se arregalam, começa a olhar em volta como que com medo, coloca a latinha em um cantinho e sai andando afobado, chega à esquina, mas volta atrás, ele precisa de mais, e não para até que a pedra se acabe.
Sai novamente, agora com os olhos arregalados, agitado, lambendo os lábios, volta a pedir dinheiro na rua, mas as pessoas agora se afastam vendo seu estado. Consegue o dinheiro com mais dificuldade, e volta para a latinha após pegar outro pacotinho.
Este dura ainda menos, não faz tanto efeito como o primeiro. E logo este também acaba. E novamente ele está atrás de uma maneira de fumar, as pessoas se tornam mais reticentes, ele não consegue o dinheiro que precisa, quando vê aquela senhora com a bolsa pendurada no braço.
Não excita e sai numa corrida só, agarra a bolsa e corre, corre sem parar como se sua vida dependesse disso. Desesperado pela droga não se importa nem mesmo em sair daquela região.
Agora já é noite, a droga acabou... ele quer mais, sempre mais. O pouco dinheiro que havia conseguido se foi. Junta as moedas que tem e com outro moleque compra outra meio a meio. É queimada rapidamente. Perambula pela rua, a procura, cutucando cada pedrinha que vê quem sabe alguém não tenha perdido alguma, não encontra nada. Sem dinheiro, sem droga, sem vida.
Começa a cair água, a chuva é forte, ainda assim continua atrás como se nada sentisse além do desejo insano de mais. Quando para sob um viaduto e logo percebe alguns jovens fumando.
Aproxima-se e pede para eles um pouco, eles riem e olham uns para os outros, oferecem a ele uma troca, um pedaço por sexo oral, ele desesperado por mais, concorda, e um por um eles o usam, ele fuma sua recompensa, que mal dá para uma tragada.
Eles lhe oferecem mais, porém em troca ele deveria lhes servir de mulher, ele chora enquanto é abusado, penetrado, rasgado. Os garotos se irritam e começam a bater nele até que ele perca os sentidos, o largam em uma rua qualquer. A noite chega ao fim.
Ele sente o sol forte em seu rosto, abre os olhos, pessoas passam por ele vindas de todos os lados, indo em todas as direções, passam como se não o vissem, apenas desviam como se fizesse parte daquele cenário deprimente de concreto em seu caminho, invisível, inexistente. Sente dor, fome, calor, muito calor, levanta-se meio tonto, sem ver direito com os olhos remelados, procura nos bolsos da roupa tão suja quanto ele próprio, não encontra nada. Começa a andar pelas ruas, devagar, sem rumo. Dor, fome, calor e vazio o preenchem...