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segunda-feira, 28 de março de 2011

Subsídios a Política sobre Drogas em Minas Gerais - Drogas, Criminalidade e Violência

Um novo panorama das políticas sobre drogas em Minas Gerais, bem como, subsídio à consecução das políticas públicas foi traçado por diversos setores sociais e pelo poder público. A Assembléia Legislativa de Minas Gerais - ALGM deu importante passo para o avanço das políticas públicas sobre drogas realizando o Fórum Técnico sobre Segurança Pública Drogas, Criminalidade e Violência”. Parlamentares, secretários de estado, técnicos e entidades sem fins lucrativos visitaram diversos municípios para debater sobre questões sobre drogas e subsidiar as ações da Comissão para realização do Fórum.
O Fórum Técnico Segurança Pública: Drogas, Criminalidade e Violência têm como foco a questão do avanço das drogas, do tráfico e do crime organizado, que tem intensificado os problemas da criminalidade e da violência. Seus principais objetivos são:
·                    Refletir sobre os resultados das audiências da Comissão de Segurança Pública no interior
·                    Discutir os desafios impostos pela criminalidade, em especial pelo crime organizado e pelo tráfico de drogas
·                    Discutir as políticas de prevenção à criminalidade e ao uso de drogas sob a perspectiva da intersetorialidade com outras políticas públicas
·                    Avaliar as políticas públicas de tratamento da dependência química, refletindo sobre as possibilidades de interface com a experiência das comunidades terapêuticas e de outras iniciativas desenvolvidas pela sociedade civil
·                    Discutir a vitimização de grupos sociais vulneráveis às diversas formas de violência
                  A comissão de representação é composta de 35 entidades e mais dois cidadãos, ela tem a função de discutir e encaminhar, junto à Comissão de Segurança Pública da ALMG, as 42 propostas finais do fórum técnico. Elas serão transformadas em proposições legislativas, gestões junto a órgãos oficiais ou audiências e debates públicos.
        Em miúdos todas as proposições podem ser transformadas em programas e projetos do governo de Minas dentro da realidade de cada região e município participante permitindo assim que sejam implantadas políticas especificas conforme a realidade de cada uma delas.

Fonte: Assembléia Legislativa de Minas Gerais – ALMG

sábado, 19 de fevereiro de 2011

A Casa da Nóia II - Paranóia

Vamos... caralho, um bar, onde tem um bar? Ali! - Ele para o carro e desce, compra isqueiros e cigarros, sabe que vai precisar. Segue adiante, conheceu aquele lugar a pouco tempo, foi apresentado ao dono do barraco a pouco tempo, esse se dispôs a recebê-lo quando precisasse, lá poderia fazer o que queria. Antes passa nos ‘meninos’, não poderia chegar de mãos vazias.
Chega e é bem recebido, sabiam que ele fora fumar, em segundos tem um cachimbo na
mão e o dono ao seu lado esperando sua recompensa por ceder o espaço. Ele tira uma pedra do bolso e lhe entrega, o dono sorri e o manda ficar a vontade, indo para o quarto, ele permanece na cozinha se senta em um banco e prepara o cachimbo, deixa um maço de cigarros do seu lado.
Dá o primeiro trago, sente o sabor da pedra, aspira a fumaça cada vez com mais vontade, com mais força até que não consegue mais puxar, tira o bimbo da boca e segura a fumaça, da mesma forma que alguém submerso segura a respiração para não se afogar, não agüenta mais, solta, e aquela nuvem se forma, ele está completamente louco, começa a olhar em volta, tem inicio a paranóia, coloca o cachimbo em frente e sem trocar a cinza põe outro pega sobre ele, e novamente: aspira... segura... solta. Começa a tatear a mesa a procura de algum pedaço, pedaço que ele sabe que não perdeu, mas a nóia o obriga a fazê-lo.
A essa altura o dono e outras visitas já sabem que ele está fora de si e então
começa a pedição: - Me arruma um pega? – Me arruma um cigarro? – Me empresta o isqueiro? Ele já sabia que isso iria ocorrer, por isso comprou mais de um maço de cigarros e mais de um isqueiro. Um para emprestar, mas o dele era dele.
Tem inicio as andanças, as nóias viam que ele ia tragar, era à hora na qual elas começavam a ir a cozinha a cada segundo, queriam aproveitar o momento para roubar-lhe a droga que estava sobre a mesa no momento de distração, ele sabia, notava, ouvia a conversa do outro lado, o dono dizia – Mas cadê? Vocês pegaram, eu quero minha parte.
Chegam novos nóias, e todos se aproveitam da situação, sabiam que ele bancaria a noite. A droga acaba. Ele pede ao dono que vá buscar mais dez, eles não tiram os olhos da carteira dele. A droga chega, ele recomeça, sabia que havia sido roubado novamente, o dono levara um isqueiro, iria abrir alguns pacotes tirar parte da droga e fechar novamente, mas ele nada conseguia fazer.
Ele ouvia, era incapaz de reagir, mas ouvia tudo ao seu redor. – Pega a chave do carro, a gente leva ele nem vai ver! Tá muito louco tem que se fuder! O cara ta tirando, fica fumando e a gente só olhando. Mentira, ele havia sido generoso e distribuído droga a todos que lá estavam não por eles, mas para tentar ter algum sossego sem que lhe pedissem, inutilmente, parecia que não havia dado nada, pois no instante seguinte lá estavam eles de novo, aquele grupo, pressionando por mais.
Ele continuava escutando. – Sabe onde tem boa noite cinderela? A gente leva o carro e ainda pega um barão pra entrega ele. Sente medo, mas não é capaz de reagir, de sair daquele lugar, não enquanto ainda tivesse droga, insistem para que ele se banhe apenas para poder roubá-lo, ele não vai. Pedem o celular emprestado, ele não empresta, Sabe que nunca mais o verá caso o faça.
A droga acaba, ele não tem como sair dali ainda, precisa se recuperar para poder dirigir, caso o carro ainda esteja onde ele o havia deixado. Querem que ele tome aguá, ele não aceita indo pegar direto na torneira, continua louco, mas precisa ir. A paranóia o consome enquanto ele vasculha o chão e a mesa atrás de qualquer farelo, não encontra nada.
Do outro lado continuam fumando, ele pede ninguém tem para lhe dar, mas continuam fumando. Ele quer ir, mas fica. Ele sente os olhares sobre si, acham que ele está escondendo algo. Imaginam que ainda tem dinheiro, tem o celular, tem o carro. O dono do barraco chega e põe umas facas sobre o armário, ele tem medo.
Com o sol quase nascendo ele sai de lá, ainda vivo, teme pelo carro, ainda assim não é o primeiro lugar para o qual ele vai, primeiro passa nos meninos, eles estavam certos, ele ainda tinha dinheiro, mas a nóia o forçou a sair daquele lugar, o medo, mas ainda queria fumar, pega o carro muito louco, como por milagre deixa de bater em uma moto, é xingado. Chega ao novo lugar, ali teria paz. Aluga um quarto e recomeça agora sozinho.
Horas depois, a recepção verifica que o seu período está vencendo. –É hora de chamar aquele drogado dos quintos, nunca mais vai entrar aqui. O interfone começa a tocar... toca... toca... toca... Ninguém atende. Ele, enfim, encontrou a paz.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Amor!

Ele estava muito contente, fora um bom dia. Havia ido ao cartório para dar entrada nos papéis do casamento, dera tudo certo. Entregou alguns trabalhos e recebeu. Voltava para casa feliz. Ao chegar beija sua avó, e diz que vai para o seu quarto, que era uma casinha que havia nos fundos. Chegando lá começa a se preparar para fumar. Sua avó sabia o que ele pretendia e se entristecia muito com o vicio do neto. Sua mãe ainda estava no trabalho, só chegaria por volta da meia-noite.
Ele fuma... fuma... e torna a fumar, já é tarde quando a droga acaba. Ele teve que parar por algum tempo, pois a noiva e a avó imploravam na janela. –Para, pelo amor de Deus, para meu amor, o que vai ser de nossa vida. Ele implorava para que Elas descessem e o deixassem terminar. Elas desistem e descem, a noiva pega seu filho e vai para casa. Ele continuou.
Agora estava descendo, chama a avó para que abrisse a porta, ele queria jantar e trocar de roupa, a que estava fedia a pedra. A avó que tantas vezes antes havia aberto a porta se nega a fazê-lo daquela vez, ela sente que não deve, ela sente algo que nunca sentiu antes, não nessa situação, medo, medo de seu neto mais carinhoso, entrega-lhe a roupa, a comida ele prefere nem pegar, e sobe novamente.
Preocupada ela resolve pegar algo no varal apenas para ver como ele estava, ao chegar lá em cima vê um vulto encostado na porta, por causa da escuridão não distingue quem é, supõe que seja o neto e pergunta o que ele estava fazendo ali, não há resposta. Ela sente a espinha gelar, e desce correndo trancando-se em casa, pensa em ligar para a filha, mas esta não poderia deixar o trabalho para ir até lá e faltava pouco tempo para ela chegar. A mãe chega e a avó relata a situação, a mãe apreensiva, e que tanto já havia sofrido, sobe e vai ver se há algum estranho no quintal, não vê ninguém, chega à porta da casa e acende a luz.
Ele também sofria, sofria muito, não por ele mesmo, mas pelas pessoas que amava, sabia o mal que estava fazendo a elas, a sua mãe que tanto procurara ajudá-lo, o havia internado, ido atrás dele pelas ruas, sua avó que sofria e orava sem parar pelo neto, sua futura esposa que sempre acreditara que ele fosse capaz de vencer o vicio, tudo isso lhe doía na alma mais do que qualquer coisa, ainda assim a droga era cruel, o vicio pedia mais. Como ele poderia vencer, como acabar com toda aquela dor que ele trazia para elas... Elas, que ele tanto amava.
Ao acender a luz a mãe solta um grito, um grito de dor e lamuria, desce correndo para a outra casa, a avó vem ao seu encontro querendo saber o que houvera, a mãe só consegue dizer que seu amado filho estava morto, havia se enforcado. Nos dias seguintes apenas se perguntavam por que ele havia feito aquilo sem compreender que ele o fizera por elas. Sim, por amor a elas ele não suportava vê-las sofrendo e não conseguia se livrar do vicio, essa foi a maneira que ele encontrou para dizer uma ultima vez: Eu amo vocês! Sejam felizes.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

A barraquinha de frutas


Era madrugada, eles não sabiam o que fazer para conseguir dinheiro, precisavam de dinheiro, sem dinheiro não havia droga. Era um grupo de cinco, um garoto, dois rapazes, uma senhora e uma jovem, já estavam se drogando há horas, alguns há dias, quase que ininterruptamente.
Eles viram a barraquinha de frutas ao longe, havia um senhor tomando conta dela. Mais dormindo que acordado. A jovem tem uma idéia, ela se aproxima da barraca e puxa conversa com o senhor, se oferece por cinco reais, ele concorda e a leva para trás da barraca.
Enquanto isso, a senhora, macaca velha naquele mundo, se aproxima da barraca e rouba todo o dinheiro que lá há, e se manda, os outros vendo que teriam droga a acompanham. O moleque cumpre seu dever, e vai buscar a pedra, enquanto ela brinca com os outros dois, eles sabem que terão a sua recompensa mesmo tendo que suportar aquela mulher os tocando, a perspectiva da droga os fazia tolerar.
O moleque chega e entrega a droga a senhora, seus corações aceleram, ela tira seu cachimbo, um cachimbo feito com a capsula de uma bala, a capsula era furada em um dos lados no qual se encaixava um pedaço de antena e fechado em cima com papel alumínio no qual eram feitos vários pequenos furos onde era colocada a cinza e sobre ela a pedra, para fixar os pedaços usava plástico derretido.
Ela deu o primeiro trago, e passou o aparato para o jovem que melhor fingiu gostar dela, sobre ele colocou um generoso pedaço, e assim foi sucessivamente, cachimbo de boca em boca. Quando a droga acabou, os rapazes tomaram seu rumo e largaram à senhora encostada em um banco de praça.
A droga importava tanto que nem mesmo notaram a falta da jovem que havia ficado na barraca ‘entretendo’ o senhor. Os rapazes então se lembraram dela, quem sabe ela teria conseguido mais, ao irem em direção a barraca, o último lugar no qual a haviam visto, assustaram-se. Na barraca havia vários carros de policia, e no chão, um corpo coberto com um plástico negro.
O senhor da barraca havia sido morto com a própria faca que usava para cortar frutas para os seus clientes, a moça não havia escapado, os policiais a prenderam. Ela avistou o resto do grupo que estava com ela antes e os apontou para os policiais. O garoto escapou, um dos jovens acabou alvejado pelos policiais, o outro foi levado, não sem antes apanhar como nunca apanhou na vida, e ele sabia que se abrisse a boca morreria. Naquela noite o garoto se encontrou novamente com aquela senhora pelas ruas, e juntos fumaram, fumavam enquanto esperavam a sua vez.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Sorte


Já são quatro horas, a noite passou rápido, já que ele estava distraído, fumando, mas ele não fumava, não cigarro. De qualquer maneira ele sabia que precisaria dele, sua cinza era importante, por isso comprou vários maços, isqueiro e o que importava: a droga.
Mas isso foi no inicio da noite, horas já haviam se passado, ele nem mesmo havia passado em casa após o trabalho, foi direto ao fumo, e fumou, com vontade e desejo, até agora.
Agora a droga acabou. Ele tinha crédito na boca, mas só ele poderia pegar, não havia como mandar outra pessoa, assim ele foi. Caminhou até o pé do morro e começou a subir suas vielas, ao encontrar o vendedor pegou o que desejava, e colocou no bolso da camisa.
Estava tão louco que não notou o súbito desespero do traficante, que após servi-lo saiu em disparada. Começou a descer o morro, ao sair da viela se depara com várias viaturas, seu raciocínio estava lento e mal pode compreender a situação, simplesmente continuou andando em direção a policia.
Ao se aproximar mandaram-no levantar as mãos e um policial verificou sua cintura, apalpando a procura de armas, e a droga estava apenas um pouco acima. O policial o dispensa, pensando que ele está indo trabalhar.
Ainda abobalhado pela droga ele segue andando, um certo alivio o percorre, afinal, ele vai poder fumar sua droga em paz. Eles não a tiraram dele. Dias depois ele percebe a sorte que teve, e jura não fazer mais aquilo, nunca mais fumaria, bom ele tinha direito a uma despedida, então aquela noite seria a ultima. Foi assim que pensou, e continuou pensando assim: aquela próxima noite seria a ultima, sempre a próxima. A última noite chegou, mas não porque ele não foi fumar, e sim porque sua ‘sorte’ acabou.  
 

sábado, 5 de fevereiro de 2011

A Casa da Nóia I



Um casal e seus três filhos moravam naquela casa. Um portão de madeira, uma rampa que levava a um cômodo grande com um banheiro no canto. O marido, antigo motorista de ônibus perdeu o trabalho por ter se viciado, a esposa, com raiva, experimentou, gostou, viciou.
Sem dinheiro, passaram a vender o nada que tinham em casa, e quanto não restava mais o que fazer, passaram a receber visitas, outros viciados que não tinham onde fumar pagavam pedágio para lá ficar, mantinham vários cachimbos para as visitas.
E assim passou há haver um fluxo constante de viciados que iam, fumavam, saiam atrás de mais, voltavam, fumavam, e iam atrás de mais... Vinte quatro horas por dia. Os filhos lá, respirando o ar pútrido, abafado daquele cômodo fechado, a nóia não permitia abrir a porta, única fonte de ventilação que havia.  
Os que chegavam com dinheiro, aqueles que garantiam a noite, eram tratados como reis, conforme a grana diminuía e a droga se acabava o tratamento ia se diferenciando, sendo cada vez pior, e quando acabava, era convidado a se retirar, pois iam ‘dormir’.
Mentira! Agora eles fumariam a droga que haviam roubado do convidado enquanto este estava bem louco e não notava, ou mesmo se notava, não estava em condições de reagir.
A bocada ficava na esquina, os traficantes sabiam o que se passava lá, e resolveram uma noite fazer uma visita. A casa estava suja, comida podre nas panelas, as crianças mais velhas ‘amontoadas’ em um canto. O menino mais novo, de uns três anos, amoado em um canto, com os olhos arregalados, quieto e calado, ele não falava.
Os traficantes ficaram revoltados com a situação das crianças, especialmente o mais novo, e decretaram que era proibido fumar naquele lugar, caso eles pegassem alguém fumando dentro da casa...
A criança que nada entendia começou a ficar estranha, nervosa, agitada. Começou a falar, sua primeira palavra: pedra. Ele estava viciado e em abstinência, os viciados que agora fumavam na área da casa notaram que ele começou a vir para fora, ficar com eles, e não importava o quanto à mãe tentava colocá-lo para dentro, ele voltava e os pais loucos, drogados, desistiam de mantê-lo lá dentro.
Em nova visita dos traficantes, o marido e a esposa tremiam de medo, pois os traficantes viram o garoto indo de nóia em nóia. Acompanhando o cachimbo. Acompanhando a fumaça. Na nóia por tabela. Eles simplesmente viraram as costas e foram embora.
Durante aquela semana o pai morreu, a mãe foi surrada, e as crianças levadas. A casa da nóia estava fechada. Mas a mãe se curou, fugiu do hospital sem ter alta, correu para o seu ‘lar’, reabriu a casa assim que colocou os pés lá, não soube o destino do corpo do esposo, não soube onde suas crianças estavam, nem pensou em procurar saber nada disso. Mas a primeira coisa que procurou ela encontrou, o cachimbo, afinal, as visitas estavam esperando.

Ele! Um dia da vida de um menino de rua.

            Ele sente o sol forte em seu rosto, abre os olhos, pessoas passam por ele vindas de todos os lados, indo em todas as direções, passam como se não o vissem, apenas desviam como se fizesse parte daquele cenário deprimente de concreto em seu caminho, invisível, inexistente. Sente dor, fome, calor, muito calor, levanta-se meio tonto, sem ver direito com os olhos remelados, procura nos bolsos da roupa tão suja quanto ele próprio, não encontra nada. Começa a andar pelas ruas, devagar, sem rumo. Dor, fome, calor e vazio o preenchem. 
Esgueira-se entre a multidão. A fome o faz parar diante de uma maquina de churrasco grego, ele observa a carne girar e o atendente cortá-la para fazer os lanches dos clientes, seus olhos até então semicerrados se abrem, o estômago ruge como um leão faminto.
Ao notá-lo o atendente fecha a cara e se prepara para fazê-lo sair dali, sua presença afasta os clientes, seu cheiro é terrível, sua cara chupada, horrorosa para uma criança, as mulheres agarram as bolsas, os homens deixam claro no olhar a desconfiança.
Quando o atendente se aproxima para afastá-lo um senhor diz para lhe dar um lanche. Ele acompanha cada corte feito na carne, está sendo colocada no pão e junto com ela uma salada rala. Pega o lanche sem desviar os olhos dele nem mesmo no momento em que o atendente manda-o ir comer lá longe.
Quase que hipnotizado, ele suspira fundo e morde o lanche fechando os olhos de prazer e mastiga aquilo como se fosse o melhor banquete do mundo, vendido a cinqüenta centavos, e nem mesmo a água colorida que dizem ser o suco que acompanha o lanche ele pôde tomar.
Segue andando pelas ruas do centro, e começa a pedir esmola para as pessoas que lhe viram a cara, depois de muito tempo, juntou o bastante para o que queria. Saí apressado, agora os passos parecem determinados, sabe para onde deve ir.
Chega ao local, olha em volta, está impaciente, ele os vê. Vai até eles, entrega o dinheiro, recebe um pacotinho, saí apressado. Agora olha para o chão a procura de algo, encontra uma lata de refrigerante na guia, a pega, amassa devagar e começa a furá-la em um dos lados, coloca aquilo na boca e experimenta, assopra de um lado e sente o ar sair pelo outro, agora puxa e o ar vem até ele, funciona.
Com algumas moedas vai até um marreteiro e compra cigarro e isqueiro, volta a caminhar agora quase em desespero, sente o ar faltar, as mãos tremerem, tem pressa, precisa de uma tragada.
Encontra uma rua menos movimentada, encosta e acende o cigarro, não se importa em fumá-lo, só deseja a cinza que ele coloca cuidadosamente sobre os buracos que abriu na lata. Depois pegou o pacotinho, dentro dele havia uma pequena pedra amarelada, meio queimada, ele quebra um pedaço, a tremedeira atrapalha, ele arruma, põe a lata na boca, acende o isqueiro e queima a pedra, tragando a fumaça pelo cachimbo improvisado.
Antes mesmo de terminar de tragar seus olhos se arregalam, começa a olhar em volta como que com medo, coloca a latinha em um cantinho e sai andando afobado, chega à esquina, mas volta atrás, ele precisa de mais, e não para até que a pedra se acabe.
Sai novamente, agora com os olhos arregalados, agitado, lambendo os lábios, volta a pedir dinheiro na rua, mas as pessoas agora se afastam vendo seu estado. Consegue o dinheiro com mais dificuldade, e volta para a latinha após pegar outro pacotinho.
Este dura ainda menos, não faz tanto efeito como o primeiro. E logo este também acaba. E novamente ele está atrás de uma maneira de fumar, as pessoas se tornam mais reticentes, ele não consegue o dinheiro que precisa, quando vê aquela senhora com a bolsa pendurada no braço.
 Não excita e sai numa corrida só, agarra a bolsa e corre, corre sem parar como se sua vida dependesse disso. Desesperado pela droga não se importa nem mesmo em sair daquela região.
Agora já é noite, a droga acabou... ele quer mais, sempre mais. O pouco dinheiro que havia conseguido se foi. Junta as moedas que tem e com outro moleque compra outra meio a meio. É queimada rapidamente. Perambula pela rua, a procura, cutucando cada pedrinha que vê quem sabe alguém não tenha perdido alguma, não encontra nada. Sem dinheiro, sem droga, sem vida.
Começa a cair água, a chuva é forte, ainda assim continua atrás como se nada sentisse além do desejo insano de mais. Quando para sob um viaduto e logo percebe alguns jovens fumando.
Aproxima-se e pede para eles um pouco, eles riem e olham uns para os outros, oferecem a ele uma troca, um pedaço por sexo oral, ele desesperado por mais, concorda, e um por um eles o usam, ele fuma sua recompensa, que mal dá para uma tragada.
Eles lhe oferecem mais, porém em troca ele deveria lhes servir de mulher, ele chora enquanto é abusado, penetrado, rasgado. Os garotos se irritam e começam a bater nele até que ele perca os sentidos, o largam em uma rua qualquer. A noite chega ao fim.
Ele sente o sol forte em seu rosto, abre os olhos, pessoas passam por ele vindas de todos os lados, indo em todas as direções, passam como se não o vissem, apenas desviam como se fizesse parte daquele cenário deprimente de concreto em seu caminho, invisível, inexistente. Sente dor, fome, calor, muito calor, levanta-se meio tonto, sem ver direito com os olhos remelados, procura nos bolsos da roupa tão suja quanto ele próprio, não encontra nada. Começa a andar pelas ruas, devagar, sem rumo. Dor, fome, calor e vazio o preenchem...